Publicado em outubro de 2015.
Segundo a pesquisa SECOM PBM 2015, 48% da população brasileira utilizava a internet semanalmente, o que correspondia a mais de 98 milhões de pessoas. Dos jovens entre 16 e 25 anos, 65% usavam a internet todos os dias; entre 26 e 35 anos, a metade fazia uso diário. Os dados mostram que quanto maior a renda, a escolaridade e o tamanho da cidade, maior o tempo de uso da internet. Dos que acessavam a rede, 67% o faziam para se informar, 67% para entretenimento, 38% para passar o tempo e 24% para estudar. O celular expandia sua participação no acesso à internet no Brasil, passando de 40% em 2014 para 66% em 2015.
Os dados que mais surpreendem são o peso do Facebook e do WhatsApp no Brasil, ambos pertencentes ao mesmo grupo empresarial. Dos usuários de internet, 83% utilizavam o Facebook e 58% o WhatsApp. Cruzando essa participação com o dado de que 67% das pessoas usam a internet para se informar, constata-se o imenso poder dessa empresa no país. A popularização da internet promoveu mudanças profundas nas relações econômicas e sociais, modificando a forma como as pessoas interagem com amigos e família e ampliando o acesso a conteúdos antes inacessíveis. Com a chamada Web 2.0, a internet assumiu um caráter mais interativo, permitindo que o usuário deixasse de ser apenas receptor, como ocorre com televisão, rádio e jornal.
O chamado mundo da liberdade virtual começa a ruir conforme as tecnologias de comunicação e informação amadurecem. À medida que se consolidam grandes empresas como Google, Facebook e Microsoft, o poder econômico reconstrói suas estruturas homogêneas e hierárquicas, rompendo com a estrutura mais aberta e descentralizada da internet inicial. Isso não significa que a resistência seja inexistente, mas as pressões contra os que propõem a internet como alternativa às grandes empresas de comunicação são crescentes e cada vez mais violentas.
Um elemento central na redução da interatividade da internet é o uso dos algoritmos nas diversas plataformas. O algoritmo é uma tentativa de modelar desejos, interesses, hábitos e preferências das pessoas com o objetivo de oferecer conteúdo, especialmente publicitário, que a plataforma estima ser relevante para cada usuário. Esses dispositivos só são possíveis graças à colossal quantidade de dados que as empresas acumulam sobre nós e à enorme capacidade de processamento computacional disponível. Essas empresas coletam informações continuamente: sabem para onde vamos pelo GPS, o que gostamos ou não pelas redes sociais e, por aplicativos de saúde, como está nosso estado físico. Se antes as empresas possuíam dados agregados que diziam pouco sobre um indivíduo isoladamente, hoje sabem tanto que o Facebook adivinha o fim de um relacionamento amoroso, sites de compras detectam gravidez antes que a própria pessoa confirme, e agências de viagens antecipam destinos de férias.
Conforme os algoritmos reduzem a interatividade da internet, as pessoas assumem posturas mais extremas nas redes sociais. Dois fatores explicam essa dinâmica. Primeiro, o mundo digital passou a representar uma dimensão importante da vida social. As redes permitem uma quantificação da popularidade que se expressa em curtidas, comentários, visualizações e seguidores. Para se diferenciar numa plataforma com dezenas de milhões de perfis, a exposição tende a ser criativa e bem-humorada, ou sectária e cheia de ódio. Segundo, os algoritmos existem para manter as pessoas interagindo o maior tempo possível com os sites, independentemente de o conteúdo gerar concordância ou discordância. Cada visualização, curtida, comentário ou compartilhamento reforça o padrão que leva o algoritmo a oferecer mais do mesmo tipo de conteúdo. O resultado é que as pessoas passam a interagir predominantemente com quem pensa como elas. Nesse ambiente homogêneo, tendem a crer que sua opinião é hegemônica na sociedade e, para se destacar entre os pares, radicalizam posições para conquistar visibilidade.
Esse fenômeno, somado a outros fatores, explica comportamentos nas redes sociais que destoam das atitudes das mesmas pessoas no mundo físico. Acreditando num anonimato que não existe nas redes contemporâneas, e convicto de ter aprovação social por interagir com pessoas de opiniões semelhantes, o usuário expressa atitudes machistas, racistas, homofóbicas e com preconceito de classe. Com base nesse falso anonimato e nessa falsa aprovação social, tornam-se cada vez mais frequentes crimes pela internet, como ameaças de estupro e de morte.
O ódio das redes migrou para o mundo físico. Assassinatos por divergência política e agressões explícitas a grupos vulneráveis tornaram-se episódios documentados. No passado, a triagem das notícias era feita por editores com base nos interesses econômicos das empresas de comunicação. Nas redes sociais, é feita por algoritmos cujo objetivo é manter as pessoas conectadas o maior tempo possível, garantindo lucro para empresas como Google e Facebook. Nenhum dos dois formatos é democrático: ambos atuam com a relação promíscua entre o direito à informação e os interesses publicitários das empresas. O mundo virtual e o mundo não virtual são o mesmo mundo real. A regulação da internet é necessária, mas insuficiente. É preciso romper com as grandes estruturas de poder que, dado seu poder econômico, influenciam as instituições da sociedade.

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