Há alguns anos, fui convidado para visitar uma mostra científica e cultural de grande importância na região onde foi realizada. O evento reunia trabalhos em diversas áreas do conhecimento. Vi exposições de linguística que surpreenderam pela diversidade do português falado nos países de influência lusitana, com destaque para o peso cultural e social dos povos africanos e indígenas na língua falada no Brasil. Jovens pesquisadores exibiram maquetes que demonstravam a diversidade topográfica do território brasileiro. Vídeos produzidos por diretores e produtores de cinema jovens criavam obras que provocavam risos, surpresa e reflexão.

Na área comum do evento, músicos de percussão sincronizaram dezenas de instrumentos com malabarismos de baquetas. Uma montagem do Auto da Barca do Inferno, do dramaturgo do século XVI Gil Vicente, foi apresentada sob os olhos atentos de centenas de pessoas. Depois, veio uma apresentação de dança contemporânea coreana com bailarinos de diferentes características étnicas. O evento tinha uma característica que o distinguia dos congressos científicos tradicionais e das apresentações de arte erudita: uma surpreendente diversidade étnico-racial. Os atores, cientistas, bailarinos e pesquisadores tinham majoritariamente traços africanos e indígenas. Moravam na periferia de uma grande cidade brasileira. Eram filhos de trabalhadores de baixa renda, sem curso superior.

A mostra que descrevo era a feira de ciências e cultura de uma escola pública da periferia de Campinas. A Escola Estadual Professor Carlos Lencastre, onde minha filha estuda, realiza semestralmente um encontro chamado Culminância, nome que remete ao verbo culminar: atingir o ponto mais elevado de uma trajetória. Para essa comunidade escolar, o momento mais importante da aprendizagem é quando estudantes e professores traduzem para a comunidade o conhecimento formal assimilado a partir das vivências e do lugar de fala de cada um.

As deficiências do ensino público não conseguem esconder três fatos fundamentais. Primeiro: a escola é o espaço mais importante de consolidação da vida comunitária nas periferias do Brasil. Segundo: os estudantes da periferia têm desejo e potencial para assimilar e produzir conhecimento formal. Terceiro: a escola pública é deliberadamente deficiente, cumprindo o papel histórico de reproduzir desigualdades num sistema polarizado que forma, de um lado, uma força de trabalho superexplorada e, do outro, uma elite que se beneficia das distorções sociais.

O exemplo da Culminância abre questões que raramente chegam aos espaços de produção de conhecimento. Como seria pensar urbanismo na perspectiva de quem gasta de duas a quatro horas por dia em transporte público lotado? Que pesquisas em ciências médicas surgiriam de pesquisadores que viram pessoas de suas comunidades morrer de doenças erradicáveis com saneamento básico? Quais economistas defenderiam a reforma trabalhista sendo filhos de empregada doméstica ou de cortador de cana? Quais historiadores negros se oporiam às cotas raciais sendo sobreviventes das chacinas promovidas pela polícia nas periferias?

A educação oferecida ao povo não é sistematicamente atacada por acaso. Há um objetivo preciso: afirmar que as pessoas são pobres porque não têm educação e, ao mesmo tempo, responsabilizá-las pelo próprio fracasso escolar e profissional. Os preceitos meritocráticos são impostos pelas escolas e pelas igrejas. Se os artistas e cientistas da Escola Lencastre não ingressam numa universidade pública, toda a responsabilidade por seu fracasso recai apenas sobre eles, não sobre um sistema que não os quer lá.

A escola como espaço de construção da vida comunitária na periferia contribui para a constituição de identidades, possibilita o surgimento de elementos socioculturais que os grandes meios de comunicação mercantilizados não valorizam, e cria um elo entre o conhecimento formal e o saber não formal dessas comunidades. Mas, como observou Dermeval Saviani em Escola e Democracia, “o dominado não se liberta se não vier a dominar aquilo que os dominantes dominam”. Dominar o que os dominantes dominam é condição de libertação.

A extrema desigualdade é reproduzida pelo sistema de ensino, mas não é gerada por ele. Ela nasce da contradição entre capital e trabalho, irradiando efeitos por todas as dimensões da sociedade capitalista. Constatar que a baixa qualidade do ensino público não é a causa da pobreza e da desigualdade ajuda a desarmar argumentos privatizantes de setores conservadores, sem retirar da escola sua parcela de responsabilidade na formação de consciências que anseiam por liberdade. Ainda que a escola cumpra seu papel de aparelho ideológico do Estado burguês, a educação pode evidenciar as contradições da sociedade, iluminar a alienação imposta pelo trabalho no capitalismo e ajudar a esboçar uma sociedade livre da exploração.

Euzébio Jorge

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