
Publicado originalmente em novembro de 2017.
O controle da crise e a disputa entre capitalismo e socialismo durante a Guerra Fria possibilitaram trinta anos de crescimento econômico extraordinário, com industrialização de países periféricos e construção, nos países centrais, de um Estado de bem-estar social capaz de atenuar os impactos das crises sobre os trabalhadores. Esse crescimento, no entanto, foi histórica e politicamente singular. O funcionamento padrão do capitalismo é reproduzir desigualdades e oprimir trabalhadores. O arranjo econômico do pós-guerra foi um recuo tático das burguesias dos países capitalistas centrais, apavoradas com a possibilidade de que o socialismo ganhasse o mundo.
Há cem anos, o povo de uma grande nação, imbuído do desejo de construir uma liberdade nunca antes experimentada, realizou a revolução e abriu a possibilidade concreta de acabar com as opressões. Foram oferecidas conquistas imateriais (liberdade e paz) e conquistas concretas (pão, terra e trabalho), construídas rigorosa e arduamente pelo povo soviético. Durante a Guerra Fria, toda desigualdade, violência, autoritarismo e pobreza gerados pelo capitalismo foram cuidadosamente encobertos, enquanto se colocava uma lupa sobre os problemas e insuficiências da experiência socialista. Qualquer análise honesta não pode negar o extraordinário crescimento material e a melhora nos indicadores sociais promovidos por um país que antes da revolução era mais de 80% agrário e tinha um povo morrendo de fome.
A saída que a URSS encontrou para consolidar sua revolução sem sucumbir à crise do capitalismo da primeira metade do século XX foi superar seu subdesenvolvimento e atingir, em poucas décadas, as bases materiais necessárias para não depender do mundo capitalista. Enquanto o mundo amargava os efeitos da crise de 1929, a União Soviética intensificou seu crescimento. Segundo o professor Wilson Cano, da Unicamp, entre 1913 e 1950 a economia soviética cresceu entre 12% e 16% ao ano, representando crescimento acumulado de 150%. Na década de 1940, a produção industrial já representava 60% do PIB e a taxa de investimento saltou de 7% para 21%.
A União Soviética investiu pesadamente em ciência e tecnologia, colocando o país na fronteira do conhecimento. Nos EUA, apenas 5% dos doutores em química eram mulheres; na URSS, esse percentual chegava a 40%. Ao estabelecer a educação como elemento central para a construção de uma nova sociedade, a URSS acabou com o analfabetismo na década de 1940, problema ainda não superado em grande parte da periferia capitalista. Entre 1950 e 1987, a produtividade dos países socialistas cresceu 350%, muito acima da verificada nos EUA, na Alemanha ou na Inglaterra.
Constatar a elevada produtividade da URSS é fundamental para desconstruir a ideia neoliberal de que o desemprego e a ausência de direitos trabalhistas elevam a produtividade econômica. Nos países socialistas, o emprego era um direito garantido a todos os cidadãos soviéticos. Ainda que não tenham conseguido transformar significativamente o conteúdo do trabalho, o povo não era conduzido pelo medo de não conseguir alimentar a família.
Este texto não pretende oferecer uma análise exaustiva dos defeitos e qualidades do socialismo soviético. Pretende apenas iluminar outra forma que a humanidade encontrou de não sucumbir às periódicas e crescentes crises capitalistas. No Brasil, mesmo com o substancial progresso civilizatório dos anos 2000, vivemos a ampliação das desigualdades. As parcas conquistas dos trabalhadores nos governos Lula e Dilma se dissolveram rapidamente, e a onda reacionária é tão profunda que até direitos da era Vargas são suprimidos. As concessões que o capitalismo fez no Ocidente durante a Guerra Fria não precisam mais ser mantidas, segundo creem capitalistas e rentistas em todo o mundo, que julgam que a ameaça socialista não existe mais. Resta saber se os povos do mundo aceitarão silenciosamente o caos, o desemprego, a desigualdade e a fome gerados por um capitalismo de mercado sem rédeas.

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