
Publicado originalmente em setembro de 2016.
O golpe que o Brasil sofreu em 2016 provoca a mesma repulsa gerada pelo golpe de 1964. A investida contra a democracia articulou interesses de uma elite coronelesca, de setores médios afeiçoados a uma forma de trabalho servil e de grupos financeiros nacionais e internacionais. O golpe teve altos custos também para os próprios golpistas, que precisavam obter em pouco tempo o retorno por terem dissolvido a credibilidade do judiciário brasileiro, destruído a confiabilidade da grande imprensa nacional, abalado a confiança na democracia representativa e praticado terrorismo econômico.
Não é difícil identificar os interesses dos grandes grupos econômicos beneficiados pelo governo Temer. Os grandes meios de comunicação que atuaram ativamente no golpe tiveram ampliação extraordinária dos recursos recebidos do governo federal. Segundo dados da Secretaria de Comunicação Social do Governo, sem considerar publicidades provenientes das empresas estatais, os recursos cresceram entre 2015 e 2016 em 92,6% para o Facebook, 900% para a revista Época, 320% para o Twitter, 78,1% para o Grupo Folha/UOL, 23% para a TV Globo, 1.129,4% para a Band e 624,3% para o Grupo Abril.
O sistema financeiro continuou se beneficiando da mais elevada taxa de juros do mundo. Com a taxa Selic em 14,25%, a especulação financeira permanecia a forma mais rentável e segura de valorização de capital, levando o Estado a transferir recursos públicos para os bolsos de rentistas internacionais por meio da dívida pública. Os bancos privados, que havia pouco tempo perdiam espaço para os bancos públicos, voltaram a registrar elevados lucros mesmo nos períodos mais agudos de crise. Os banqueiros que financiaram o golpe preferem ganhar dinheiro com a especulação pura a cumprir seu papel social de garantir financiamento para investimento produtivo e consumo.
A missão mais perversa do golpe, no entanto, está em curso: retomar a desigualdade social dos níveis anteriores à década de 1970, desarticular qualquer regulamentação que ofereça segurança ao trabalhador e revogar os direitos sociais que combatem a desigualdade e a pobreza no país. Esses três objetivos agem em sinergia para enfraquecer o trabalhador na luta de classes e resgatar uma forma de trabalho servil muito próxima à escravidão.
Se é verdade que o Brasil aproveitou um período de liquidez internacional e um ciclo favorável de commodities para crescer nos anos 2000, é verdade também que parte desse crescimento foi sustentada pela elevação do poder de compra do trabalhador, pela ampliação do salário mínimo e pelas políticas de transferência de renda aos mais pobres. A elevação dos salários médios e a redução do desemprego afetaram não só as grandes empresas, acostumadas a um contingente amplo de trabalhadores dispostos a aceitar qualquer salário, como também os setores intermediários habituados a grandes contingentes de serviçais dispostos a trabalhar por comida e um teto.
É compreensível que a FIESP lute por um golpe cujos objetivos são o enfraquecimento dos trabalhadores, de suas organizações e das legislações trabalhistas. É compreensível que bancos e grandes meios de comunicação defendam a EC 241 (a chamada PEC do Fim do Mundo), que congela os gastos do governo federal por vinte anos, retirando recursos da saúde, da educação, da cultura e do combate à pobreza para pagar juros da dívida pública. É compreensível que os EUA financiem um golpe no Brasil que destruiu a Petrobras e tenta entregar o pré-sal a grandes grupos financeiros americanos. O que não se compreende é a existência de trabalhadores defendendo equilíbrio fiscal, redução de direitos trabalhistas e corte de gastos sociais.
As contradições observadas no Brasil de hoje não são apenas simbólicas: são materiais. Os empresários brasileiros sempre usaram a competitividade internacional à custa da superexploração do trabalhador. A elite branca sempre contou com concentração de renda tão elevada que permitia a existência de todo tipo de serviçais a custo baixíssimo. A miséria no Brasil sempre possibilitou trabalho escravo e clientelismo eleitoral. Serviços públicos de qualidade, como as universidades públicas, nunca foram questionados até que passaram a ser frequentados por pobres e negros.
Na última década, enquanto se falava em combater desigualdades sociais e econômicas, a direita lutava contra um fantasma de socialismo bolivariano. Quando se falava em ampliação da democracia, reforma política e constituinte, a direita defendeu um golpe e o fim do Estado democrático de direito sob o pretexto de combater a corrupção. A resposta a esse quadro é a maior unidade possível entre estudantes, trabalhadores, negros, pobres, feministas e LGBTs na luta pela manutenção dos direitos e pela preservação dos salários.

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